JORNAL PEQUENO

Caxias em Off

Jotônio Vianna

04 de novembro de 2014 – Terça-feira

Cultura & Variedades

Cartografia do rock caxiense

Isaac Sousa

Rock é música urbana – filha do êxodo rural com a eletricidade… E, assim, como a vocação da cidade é cosmopolita, a do rock também é. Como a cidade, ele se faz de encontros: de gentes, cores e sotaques diferentes; de crenças, ideias e gostos esquisitos. Ele canibaliza sons que vêm de longe, metaboliza-os, eletrocuta-os; da mesma forma que a cidade nos mastiga e nos processa, produzindo a si mesma. Ele independe da vontade da quase-toda poderosa indústria fonográfica – é uma consequência cultural da urbanidade, ele floresce onde os encontros acontecem.

Caxias – pequena metrópole, grande província – vê formar-se em suas entranhas uma cartografia do rock. Uma paisagem de relevos mutantes e terrenos perigosos. E quanto mais o fluxo de pessoas se intensifica na cidade, mais essa cartografia se altera e se expande.

No centro, ainda estão as bandas de apelo made in Brasília, com repertório flash back voltado para os anos 80 e 90. A maior representante desta tendência é a veterana Garagem Nacional (com álbum inédito lançado), circundada por congêneres, como as bandas Rádio Rock Cafe, Sociedade Rock Roots e BKP– todas de sonoridade radiofônica e inócua. Já nas periferias, o caldo ferve, com o pessoal do underground. As bandas têm menos apelo comercial, e trabalham um som sujo e sombrio. Delas, as que apresentam maior atividade são a Alpha 6 Rock e a Skull Flame, mas há outros nomes, como Castelo Negro e Metal Essência.

As centrais

Enquanto as bandas centrais tocam em eventos e ambientes de certo requinte – como Diretoria Pub, Restaurante GranBrasille, Terraço Show Bar –, as bandas periféricas organizam seus encontros em quadras de escolas, praças, calçadas e galpões. O fato de não dependerem de aceitação massiva dá a essa galera maior liberdade de criação. De modo que, ao contrário das bandas centrais, que baseiam seu trabalho em covers, as bandas periféricas dão ênfase às suas próprias composições…

Gospel

…Outro eixo é o das bandas gospel. De um tempo para cá, o rock tem sido predominante dentro das igrejas, através de figurinhas como Fernandinho, David Quinlan, Oficina G3, Heloísa Rosa e outros. Em Caxias, há bandas como FER e Hermon, ambas com CD gravado…

Fluxo

…Assim como há fluxo entre os bairros na cidade, também há fluxo de público e de bandas entre os eixos do rock local. Por exemplo, a banda BKP, apesar da tendência new wave, transita entre o centro e o underground, assim como a Alpha 6 Rock, que tem pegada headbanger, tem entrada nos eventos centrais, e até mesmo em eventos gospel.

Cartografia

…Mas essa cartografia não passa de um esboço – e tem que ser veloz, porque como foi dito, essa paisagem muda constantemente, se liquefazendo e se solidificando de novo no instante seguinte. E há indícios de erosão em alguns segmentos, mas uma erosão boa, que força a criação de novas soluções, o surgimento de novas texturas. O rock é música urbana – e como a cidade, ele não para nunca (Isaac Sousa é músico).

CasinoQuebec

Por último, surge em Caxias a banda CasinoQuebec. Sua sonoridade se baseia no hard rock, rock n’roll e em novas tendências roqueiras (como o nu metal). Mas a originalidade da banda se deve à forte presença de elementos da música brasileira e nordestina (como a bossa, o reggae, o xote e o baião)…

Stablishment

…Rompendo com o stablishment local, a banda privilegia a música autoral e os arranjos originais. A canção de Oswaldo Montenegro, “Bandolins”, é na versão da CasinoQuebecuma releitura de elaboração completamente nova…

Versões

…Além da releitura de Bandolins, novas versões (roqueiras) de clássicos nordestinos universais, como: “Morena Tropicana” (Alceu Valença), “Espumas ao Vento” (Flávio José) “Súplica Cearense” (Gordurinha e Nelinho), “Carcará” (João do Vale) e “Mama África” (Chico César)…

Inéditas

…De quebra, seis músicas inéditas, entre elas, “Todo mundo quer ser Deus” – poema de Renato Meneses que já ganhou uma musicalização em 2007, mas vem agora em um conceito totalmente diferente… É rock puro, e na veia!

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Caxias em Off

Jotônio Vianna

28 de outubro de 2014 – Terça-feira

Cultura & Variedades

Mundo de curiosidades

Certa vez, em um campo bem escondido nas margens do rio Itapecuru, nasceu uma menina muito delicada e simples. Tinha a pele branca como as nuvens, adorava os rios, os animais, as árvores e tinha um grande amor pelas flores do campo.

A menina ficava horas e horas admirando a beleza das flores do campo, sonhando um dia ser uma delas. Enquanto isso, o aroma da noite enfeitava seus sonhos e a lua iluminava as águas do rio.

Um dia a menina fez um pedido para as estrelas, mas seu pedido não foi realizado. Ela ficou muito triste e no dia seguinte caminhou por várias horas pelo campo para tocar nas flores e sentir a maciez de suas pétalas. Ela acreditava que se tocasse nas pétalas das flores se tornaria uma delas.

Na noite seguinte, a menina saiu de sua casa esperando que seu sonho fosse realizado. Ela seguiu em direção ao campo para olhar as estrelas que iluminavam as flores. Uma grande estrela cadente pousou lentamente e a menina sentiu que ela estava ali para realizar seu sonho e transformá-la numa linda flor do campo. A estrela transformou aquela menina em uma flor com pétalas amarelas e deu o nome de Margarida. E foi desse jeito que apareceu a Margarida, essa linda flor do campo… (Geovanna Brayner).

Imaginação

E foi assim, na idade de oito anos em média, que 28 crianças do 4º Ano A do Ensino Fundamental do tradicional Colégio São José, sob a orientação da professora Socorro César, deixaram a imaginação fluir para narrar com pureza peculiar mitos e sonhos que cultivam em um mundo só seu…

Autores mirins

…O texto acima é de Geovanna, mas poderia ser o de Ágatha Beatriz, Ana Beatriz, Anielly Larissa, Anne Lyvia, Bruna Lorena, Clara Geovana, Ellen Trycia, Erick José, Gabriel Machado, George Barroso, João Marcelo, Kawanda Stephanne, Lara Vanessa, Maria Clara, Maria Eduarda Caetano, Maria Eduarda Vilanova, Mariana de Alencar, Mari Marcelly, Mell Daniely, Náiade Letícia, Nicolas Reis, Pablo Thiago, Pâmela Ferro, Pedro Emmanoel, Pedro Lucas, Ramon Aragão e Sophia Almeida… Todos os autores mirins mereciam ter aqui seus textos reproduzidos, o que não se faz por absoluta falta de espaço na coluna…

Obra

…A obra ‘Um mundo de curiosidades’, impressa pela Multgraf, é inspirada nas produções das escritoras Ana Maria Machado e Ruth Rocha e foi lançada em setembro passado na I Mostra de Leitura do Colégio São José…

Coletânea

…Da iniciativa original da professora Socorro César brotou a coletânea de pequenos textos que transportam o leitor a um surpreendente campo de inocentes ficções que se embrenham na beleza da fauna e da flora atrás de explicar o que aos adultos parece inexplicável nas peculiaridades dos gatos, flores, rosas, jardins, abelhas, leões, coelhos, bicho-preguiça, cachorros, bodes, borboletas, tartarugas, hienas, enfim, toda uma gama de sutilezas nas características individuais de tudo o que compõe a fábula que habita os corações das crianças…

Fantástico

…Suas narrativas entremeadas de sons próprios da natureza deslizam suavemente para um complexo fantástico sem a preocupação de sequer ter a obrigação de saber o que é a fábula em si e nem se o final das histórias embutem um ensinamento moral ou lá o que seja…

Expressão

…É apenas a expressão pura e simples de um jogo do imaginário que docemente engaveta no tempo o próprio tempo em que essas crianças tiveram a oportunidade de mergulhar fundo em pensamentos e nas suas interrogações que carecem de quaisquer outras explicações que não a da pura imaginação…

Dimensão

…Na obra, os autores mirins não precisam saber quem foi o escravo e narrador alegórico Esopo que viveu no século V a.C., nem La Fontaine e outros similares… E é isso o que encanta no ‘Um mundo de curiosidades’: apenas o misto infantil do salto na dimensão das impossibilidades que só a mente humana é capaz de fazer, seja em que idade for…

Explicações

…É a própria professora Socorro César que avalia na apresentação do livro: “Quantas vezes não sabemos responder ou falta mesmo imaginação para as tantas perguntas de uma criança? Em alguns casos são realmente dúvidas e outros apenas uma grande carência de atenção. Nas duas hipóteses, acho importante não deixar de esclarecer tais questionamentos e, até mesmo, ter a coragem de confessar que para você aquilo também é duvidoso… Pois foi justamente esse mundo de curiosidades infantis que fez nascer a ideia de criar explicações através de narrativas para algumas das diversas dúvidas da criançada”.

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POESIA EM ESTADO DE GRAÇA

 

Antonio Carlos Lua

Jornalista

 

A poesia do imortal Quincas Vilaneto no livro em “Tear” marca sua trajetória poética, que tem como referência principal a cidade de Caxias, berço, recinto originário do grande poeta, membro da Academia de Letras daquele município.

 

“Tear” é a poesia em mais perfeito estado de graça. Como não poderia deixar de ser, boa parte da inspiração para produzir a obra veio de Caxias, dos tempos de infância, da juventude, de pastos imensos da aldeia, da qual Quincas Vilaneto nunca se desvinculou e onde estão as marcas da sua poesia, vivência e inquietações.

 

No livro, ele consegue mostrar afeição e cumplicidade pelo texto poético e nutre-se do real para fazer brotar a poesia. Ou seja, o real e o poético fundem-se para a construção dos poemas arrancados do chão sagrado de Caxias, com predominância de versos livres e envolventes.

 

É o poeta no passado, no presente, sentindo-se preso às origens, revelando que as lembranças da infância permanecem vivas no homem adulto, que bebeu água cristalina da Veneza e dela ainda alimenta a poesia que corre nas suas veias.

 

Em “Tear”, as imagens de Caxias nos poemas de Quincas Vilaneto passam por um processo tão intenso de elaboração na cabeça do poeta que, em alguns momentos, a cidade passa a ser tema e ao mesmo tempo personagem, expressando a alucinada paixão e o profundo envolvimento de Quincas Vilaneto com as coisas da aldeia.

 

A terra (Caxias) não é somente a da infância, mas também da mocidade, do momento atual que vive Quincas Vilaneto, vez que os poemas — aparentemente deslocados uns dos outros — cumprem o papel de chamar atenção para curiosos fatos que, com a capacidade memorialística do poeta, ganham especial enfoque.

 

“Tear” traz uma narrativa poética impressionante e mostra o notável talento do poeta Quincas Vilaneto, cujos belos poemas são construídos a partir de experiências únicas e situações cotidianas, interpretadas com o olhar atento e detalhista do brilhante poeta. É um livro para ser lido em voz alta.

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Caxias em Off

Jotônio Vianna

21 de outubro de 2014 – Terça-feira

Cultura & Variedades

Bumba-meu-boi

 

Umadas manifestações folclóricas mais tradicionais do Brasil, o Bumba-meu-boi se assemelha à composição de um auto, no qual se misturam personagens, músicas,danças e teatro. Em cada parte do país, o boi recebe uma denominação diferente, mas na síntese é a mesma expressão popular dos festejos oriundos no século XVII, durante o Ciclo do Gado, quando o animal adquire uma importância econômica extraordinária e a esta é acrescida vários simbolismos folclóricos.

A lenda do Bumba-meu-boi reflete assim o modo de vida dos colonizadores e a relação social destes com a mão de obra escrava utilizada na pecuária de então, tudo sicretizado a influências africanas, tradição europeia e festas portuguesas e francesas… Daí surge a história dos escravos Pai Francisco e Mãe Catirina. O desejo da última em comer a língua do boi mais bonito e a morte do animal pelo marido enceta o dono da fazenda a convocar curandeiros e pajés a ressuscitá-lo… Morte e vida que prosseguem encantando todos na festa até hoje.

Repressão

Como tudo que nascia do contexto da escravidão ou do seu simbolismo existencial, o Bumba-meu-boi sofreu forte repressão das elites colonizadoras e foi proibido entre 1861 e 1868…

Gemido

…Principalmente nos meses de junho e julho, durante as festas juninas, os aboios, as toadas, os repentes, as canções pastoris e as cantigas gemem ao som de cordas e percussão, emitindo um som único e original…

Manifestação

…De forte tradição, a cultura popular caxiense se manifesta com suas histórias, mitos e lendas nas brincadeiras juninas de Santo Antônio, São João, São Pedro e São Marçal, nas quais se entrelaçam o Bumba-meu-boi, quadrilhas juninas e danças como a do Lili, da Fita e portuguesa. Outras linguagens também se associam ao folclore, como o Divino Espírito Santo, os Caretas e a Marujada.

Bois de Caxias

…O Bumba-meu-boi em Caxias tem em sua indumentária o boi de cofo (artesanato típico da região leste maranhense, fabricado por famílias de agricultores), extraído da palha do coco babaçu, Ocofo, em si, já tem um formato do corpo de um boi. Há duas particularidades na Princesa do Sertão: o boi de cova, e o boi que é solto na correnteza do rio Itapecuru.

Boi de cova

…Uma especificidade se realça no boi Brilho da Ilha, que faz visitas às covas do Bairro Campo de Belém, da Olaria, da Comunidade das Pedras. Ele tem uma característica dentro do seu túnel religioso na qual os bois em um determinado dia antes de sua morte visitam as covas dos seus entes queridos, ou seja, de ex-brincantes que não mais pertencem ao mundo dos vivos…

Cemitérios

…Então, o Amo do boi e seus brincantes (mãe Catirina, pai Francisco e demais personagens), vão a encanto e fazem apresentações teatrais, adentram o cemitério das suas localidades e fazem os rituais. Tudo isso em forma de teatro, dança, sínteses da arte cênica.

Boi de rio

…Outra particularidade do boi caxiense é o boi que é solto no rio Itapecuru. O mesmo é uma espécie de boi de cofo colocado em uma canoinha, que pode ser confeccionado de papelão ou do talo do buriti. Nessa canoa é colocada apenas a armação do boi…

Pedidos

…Daí, o boi é solto no sentido da correnteza do rio Itapecuru, pedindo inovações, saberes, para que no ano seguinte a sua indumentária possa ser mais agraciada em vestimenta e acessórios, enfim, tudo novo. O nosso bumba meu boi é uma explosão de ritmos e sotaques dentro de uma arte cênica.

Cadastro

Atualmente, cadastrados na Secretaria Municipal de Cultura de Caxias, há, entre outros, o Bumba Meu Boi Mimo-da-Fazenda, Boi Brilho-da-Ilha, Bumba Meu Boi Canário Verde, Boi Encanto e Bumba Meu Boi Rei Brilhante.

Trabalho

Parte do texto da coluna se baseia em trabalho sobre ‘A manifestação Bumba-meu-boi no município de Caxias’, dos acadêmicos Jeilson de Oliveira Moisés e Mirlanir Mendes Rios, do Centro de Estudos Superiores de Caxias (Cesc/Uema), orientados pelo professor Roldão Barbosa, também da Uema… A gravura sobre o tema é do artista plástico Manassés Borges.

Dia

Em dezembro de 2009, o Governo federal instituiu o dia 30 de junho como Dia Nacional do Bumba-meu-boi, por meio da Lei nº 12.103… O autor do Projeto de Lei foi o deputado federal Carlos Brandão (PSDB/MA).

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Caxias em Off

Jotônio Vianna

07 de outubro de 2014 – Terça-feira

Cultura & Variedades

Canção ao exílio

O poema Canção ao Exílio é de autoria do poeta e membro fundador da Academia Caxiense de Letras (ACL) Wybson Carvalho, cadeira nº30 patroneada pelo poeta João Vicente Leitão. No qual temos como temática central o saudosismo em relação à cidade de Caxias, a respeito dos tempos de sua infância. O poeta inicia o mesmo saudando a beleza da cidade e das palmeiras de outrora.

Como primeiro elemento significativo, temos a análise do próprio título que nos remete ao conhecido poema Canção do Exílio, do também poeta caxiense Gonçalves Dias, porém, o “exílio” difere nos dois poemas, pois enquanto o poema gonçalvino tece elogios à terra da qual está ausente e a compara com outras que segundo ele possui menor beleza, o outro lamenta a realidade em que vive nesta terra, Caxias. Dessa forma o sentimento que é expresso, tem como alicerce a fuga, tanto que se recorre ao exílio como saída da inquietude em que se vive.

De acordo com seus segmentos estruturais, o poema é composto por 21 versos e quatro estrofes, sem a presença de rimas, sendo constituído por uma oitava (estrofes com 8 versos), uma sextilha (com 6 versos), uma quadra (com 4 versos) e por um terceto (com 3 versos), não possuindo, assim, uma forma fixa. Seguindo com a análise dos demais extratos encontramos expressões como “jardins urbanos”, que representam a bela paisagem natural que havia na cidade de Caxias, bem como a alegria que exalava do cheiro das árvores, que abrigavam os “pássaros canoros”, expressão que também se refere ao canto dos sabiás que ali estavam no alto das palmeiras, referência típica à nossa cidade.

A primeira estrofe faz uma saudação à cidade que outrora existia na infância do poeta. O eu-lírico expõe que não há mais palmeiras, no sentido de reforçar a reflexão acerca da triste realidade do ambiente caxiense, em que não há uma conscientização a respeito da preservação da nossa história e das características que tornam a cidade marcante. Os dias eram alegres, como se vê no verso seguinte: “com a minha cidade crescia/a romântica dos poetas…”, ou seja, o canto do sabiá servia como uma fonte de inspiração e tornava mais radiante a beleza do solo caxiense, berço de poetas e riquezas naturais.

Partindo para a segunda estrofe temos um olhar saudoso, ao relembrar que os dissabores ficavam em segundo plano, o poema retrata que existia um ambiente harmônico que expulsava tudo aquilo que trouxesse sentimentos contrários à amizade: “a inimizade humana/passava por sobre ela/em eólica turbulência rumo/às outras plagas”, ou seja, se dirigia para longe, para outras regiões. O homem que habitava este solo abrigava uma visão otimista da realidade e do mundo.

A respeito das duas últimas estrofes temos o sentimento de inquietação, de busca por respostas, de saudosismo a uma época diferente da que se tem agora. O eu-lírico desabafa e temos um choro de lamentação íntima, ele lembra o canto do sabiá de uma forma diferente, não se percebe o entusiasmo de antes, quando falava das palmeiras, do perfume, de como era bom viver aqui. O que vemos é um sentimento de inconformismo, pois, de certa forma era o início de um futuro, como ele mesmo diz, de regresso e de abandono. As palmeiras já não são vistas como antes, até mesmo pelo fato de muitas terem sido alvos de destruição devido à ação humana, que desmata a nossa vegetação de uma maneira desordenada. Da mesma forma, não ouvimos o som dos sabiás pela manhã, pois seus lares agora são poucos.

De acordo com essa perspectiva, Canção ao Exílio expressa um pedido de socorro, como o último apelo que se pode fazer: “e, agora, quais árvores darão/abrigo a outros pássaros canoros/para entoarem um canto de saudade?” Essa estrofe se resume ao desespero, a uma pergunta sem resposta, representa que essa saudade será eterna, que irá se perpetuar por todas as gerações que ainda virão. A terra citada por Gonçalves Dias, já não é mais a mesma, o exílio é agora, o desejo de mudança, num sentimento de frustração por ver todas as transformações sem ao menos poder fugir. Faz-se um questionamento à procura de todos os elementos citados na poesia que ultrapassou séculos, cadê as palmeiras, os sabiás, os primores. E a resposta é o silêncio, estamos perdendo aos poucos o símbolo que nos tornam singulares, “a terra onde canta o sabiá”… Publicado no sitehttp://litercax.webnode.com/news/analise-do-poema.

Canção ao Exílio

em minha terra havia palmeiras

e o canto dos sabiás.

nela, exalava o perfume

dos jardins urbanos.

dela, ouvia-se a linguagem

singela do cotidiano.

com a minha cidade crescia

a romântica dos poetas…

 

a inimizade humana

passava por sobre ela

em eólica turbulência rumo

às outras plagas,

para derramar-se noutros

cenários de ganância existencial.

 

à minha terra, na infância,

ouviam-se sinfonias sabianas

nas manhãs iniciais de um

futuro já desenhado ao abandono.

 

e,agora,quais árvores darão

abrigo a outros pássaros canoros

para entoarem um canto de saudade?

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Caxias em Off

Jotônio Vianna

30 de setembro de 2014 – Terça-feira

Cultura & Variedades

Luiz Baima

Ano de 1914, 28 de setembro seco, mas ventilado… Há 100 anos, no pequeno sítio denominado Castelo, localizado no então 2º Distrito do município de Caxias, hoje pertencente a Aldeias Altas, ouviu-se o choro de uma criança. Choro forte. No ar, a tensão dos pais eo aroma dos cajueiros, mangueiras, das umbelas dos ipês, flores silvestres… Filho de Débora Bayma Pereira e José Maria Alves Pereira Filho (o Juca Pereira), nasceu Luiz Gonzaga Baima Pereira.

Na infância simples, desprovida de bens materiais, Luiz Baima cultivou desde cedo firmeza de caráter, o que lhe rendeu posição de liderança e marcada ascendência entre os irmãos e demais familiares. Fortemente apegado às convicções e princípios éticos dos pais, amadureceu ainda jovem o respeito ao trabalho e à responsabilidade solidária.  Irrequieto e com disposição invejável, foi funcionário da antiga estrada de ferro São Luís/Teresina, agente de Estatística da Prefeitura de Caxias, secretário e delegado municipal do Serviço Nacional de Recenseamento em Caxias, comerciário, industriário e inspetor de Ensino da Secretaria de Educação do Estado do Maranhão.

Já residindo na capital do estado, foi subchefe e assessor do Gabinete Civil do governador do Maranhão. Como empresário e sócio da empresa Eugênio Barros e Cia. (depois Eugênio Barros SA, com atuação na área têxtil, de óleos vegetais e comércio exportador), contribuiu sobremaneira para o desenvolvimento da Princesa do Sertão. Posteriormente, fundou a empresa Ferro, Baima e Cia., com atuação no beneficiamento de madeiras, indústria e fabricação de móveis. Na antiga fábrica de tecidos Sanharó, junto com a saudade do velho apito, ecoa reverência e gratidão a Luiz Baima pelos longos anos de vida no trabalho diuturno na instituição empresarial.

Política

Ainda não satisfeito com a vida já atribulada, Luiz Baima enveredou na lide política e sindical. Foi duas vezes um dos vereadores mais votados em Caxias (1948 e 1950). Presidente e delegado do Partido Libertador (PL), secretário e delegado municipal do Partido Social Democrático (PSD) e da Aliança Renovadora Nacional (Arena) em Caxias, além de Executor dos Trabalhos da Secretaria Geral no âmbito estadual. Da sua militância sindical resultou a criação do Sindicato dos Empregados do Comércio de Caxias, no qual consta como um dos sócios fundadores e presidente…

Jornalismo e filantropia

…Na área jornalística, foi diretor do Jornal do Comércio de Caxias; presidente, tesoureiro e secretário da União Artística Operária Caxiense; do Clube Recreativo Caxiense; e do Centro Operário Caxiense. Na filantropia, atuou na Legião Brasileira de Assistência (LBA); na Associação da Assistência à Maternidade e à Infância de Caxias, da qual é sócio fundador e um dos artífices na construção dos prédios do Posto de Puericultura Duque de Caxias e da Maternidade de Caxias, posteriormente cedidos ao Governo do Maranhão e onde funcionou o antigo Hospital Sinhá Castelo…

Prole

…Luiz Baima faleceu em 9 de abril de 2004… Da sua prole com a viúva Dona Íris Ferro Bayma Pereira, além dos familiares genros, noras, cunhados, netos, bisnetos e sobrinhos, há os filhos Antônio Rodrigues Bayma Júnior, Eliane, Maria da Graça, Luzia Marília e Jorge Luiz; já falecidos Antônio Luiz Ferro Baima Pereira e Luiz Ferro Baima Pereira…

Irmão

…O escritor e confrade Rodrigo Baima, da Academia Caxiense de Letras, é o único dos irmãos de Luiz Baima vivo, que, como tal, é também um ser humano irrequieto, profundo conhecedor da história local e estadual, de memória privilegiadíssima… O nosso ‘arquivo vivo’…

Discrição

…Apesar da profícua e múltipla atividade, Luiz Baima era um sujeito discreto, pouco dado a rapapés ou à publicidade do que fazia… Homem de bastidores, exerceuforte influência durante sua atuação no Gabinete Civil do Governo estadual…

Consulta

…Na Princesa do Sertão de sua época era sempre visitado e auscultado por políticos, empresários, sindicalistas, profissionais liberais e intelectuais com interesse na vida político-partidária maranhense…

Numa Pereira

…O irmão Numa Pereira, que idem enveredou na política local, foi vereador duas vezes (1954 e 1958) e também prefeito de Caxias duas vezes (1960 e 1980)…

Fronte erguida

…Segundo suas próprias palavras, ao completar 88 anos de idade, Luiz Baima se disse um homem de fronte erguida e serena, que o permitia contemplar o passado e o presente percorridos com honradez e realizações…

Obra

…O texto acima é baseado na obra ‘Ramas do Tempo’, da escritora Inês Maciel (com edição), membro da Academia Caxiense de Letras e sobrinha de Luiz Baima, ela própria uma confessa admiradora do percurso de vida do tio.

 

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Velha Guarda, juventude, presente

Para encerrar a pujança festiva do III Encontro da Velha Guarda Caxiense, no bom estilo do rescaldo intelectual, vai aqui um texto da professora Betânia Costa, que deixou Coimbra, em Portugal, onde faz doutorado, apenas para cair na folia tupiniquim… Inspirada, a ‘rapariga’ brasileira, agora meio lusitana, viajou na reminiscência, juntou seus resíduos sentimentais, centelhas incrustadas, fragmentos da alma… Vide lá:

A Velha Guarda

e a juventude do presente

Caxias é uma cidade singular, no seu corpo habita a força da resistência de Balaios e Bem-te-vis, nas suas veias corre o sangue lírico de poetas e escritores (as), o som suave das baladas musicais das vozes de seus cantores, dos tambores da umbanda, do urrar dos bois; a primazia do saber fazer dos artesões; o bailar dos caretas, do Lili, dos Guanarés…

Nesse universo diverso, surge o Encontro da Velha Guarda caxiense, um movimento que fortalece a identidade cultural da cidade, que agrega desejos e pessoas de várias gerações. Nele, percorrem-se locais que em tempos vivemos que a hora tardia esvaziou da gente e dos sons que o habitaram. E que neles entramos lentamente, quase em reverência. Pisamos o chão devagarinho, para não acordar o presente. Refazemos cada passo, reconhecemos a pedra torta, a árvore que falta, sabemos ainda das alegrias, do lugar dos medos, escutamos as gargalhadas, os passos, o roçar das malas de quem se vai…

Por vezes é bom revigorarmos o passado das cidades e de seus cidadãos. Buscamos neste tipo de viagem temporal não os lugares, mas a nós mesmos. Revisitamos quem fomos, relembramos um certo tipo de inocência, de otimismo e de limpidez no olhar e no final sorrimos a quem fomos com a melancolia, a maturidade e a sabedoria do presente.

A Velha Guarda é um lugar de encontros, reencontros, sorrisos, abraços e carinhos…. Parabéns aos idealizadores e organizadores do movimento (Betânia Costa)!!!…

Cortinas

…Fecham-se as cortinas… Até 2016, quando se reencontrarão todos os dinossauros caxienses!

Economia informal

De volta ao cotidiano, segue abaixo um relevante estudo do economista caxiense Kalil Simão sobre a economia local…

Economia informal II

…A economia informal em Caxias vem decrescendo nos últimos anos. No período 2003/2013 se observa queda constante nos valores que representam esta economia. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (Etco), podemos estimar os valores que a economia informal representa para o município. Ela movimentou em 2013 aproximadamente R$ 132.777 mil contra R$ 137.695 no ano anterior. A redução de 3,70 pontos percentuais decorre de gradativas melhoras institucionais, como a simplificação tributária, com o Simples, Supersimples e MEI (Micro Empreendedor Individual), desoneração da folha de pagamentos, etc…

Novas empresas

…Caxias fechou o ano de 2012 com 5.376 empresas, devidamente legalizadas, constituídas principalmente, por micros e pequenos empreendedores do ramo comércio/serviço. Em 2013 esse número passou para 6.054 empreendimentos, com a criação de mais 678 novas empresas. Evolução de 12,61%…

Novas empresas II

…Até 27 de junho de 2014, foram criadas 288 empresas no município de Caxias, ou o equivalente a 2,38 empresas abertas por dia útil, que representa 42,48% do número de empreendimentos formalizados no ano 2013…

Empreendedorismo

…Caxias é o quarto município mais empreendedor do Estado, com participação de 2,24%. Neste ano, a média diária de abertura de novos empreendimentos é de 2,38 empresas/dia útil…

Comércio

…Na análise do volume de novas empresas por setor econômico, o setor Comércio se apresenta como o mais dinâmico, com 3.401 empresas. O setor Serviços, com 2.343; o Setor Indústria com 307 empresas. O setor Agronegócio se apresenta com 187 organizações; o setor Financeiro com 88; e o Setor Público se apresenta com 16 empresas. Há de se observar que, somente no ano 2005, foram criadas em Caxias 1.146 empresas do setor Comércio; 711 do setor Serviços; 89 no setor industrial; 83 no Agronegócio; 10 no Financeiro e 4 no Setor Público…

Abertura

…Até o ano 2004 a média anual de abertura de novos negócios era de 49 empreendimentos. No ano 2005, houve abertura de 2.039 novas empresas no município e após o ano 2005, na média, foram 428 novas empresas…

Sequência

…Acompanhe na próxima coluna de terça-feira a sequência ao trabalho de Kalil Simão… Vale o registro.

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VELHA GUARDA POR JOTÔNNHO VIANA

Leite no pires

Fim de festa, malas arrumadas, adeus e pé na estrada… Como gatos que beberam com sofreguidão o leite no pires, assim se despedem os dinossauros que moram longe… Pois agora é hora de refletir sobre o legado do III Encontro da Velha Guarda e o que isso contribuiu para a Princesa do Sertão além de recarregar as baterias da turma que fica e da que se vai.

Hora de pensar, por exemplo, na personalização, em critérios que norteiem efetivamente a iniciativa, hoje dirigida mais de maneira consensual mas sem normas que oficializem coletivamente o comportamento de seus organizadores. O movimento cresceu e não dá mais para achar que o amanhã acabou numa noite de porre e puro hedonismo ao som de Renato e seus Blue Caps… O que Caxias lucrou de fato com a festança? Que influências a velha guarda deixa para modificar a cultura de enlatados que se pratica hoje neste solo de onde no passado brotaram tantos talentos que viraram faróis para o Brasil e o mundo?… A Velha Guarda, de certa forma, lembra um pouco as grandes festas de São Benedito, que após ser encaradas como pagãs pela Igreja Católica tiveram fim melancólico.

A diferença exponencial da Velha Guarda se encontra exatamente na liberdade de não estar vinculada a credos políticos ou religiosos. No apartidarismo a que me referi na coluna de ontem está o valor intrínseco e a própria sobrevivência do movimento… E, desvinculado de amarras similares, terá inconfundível capacidade de mudar, sim, o norte cultural da cidade.

Curvas

Nas curvas que não são da estrada de Santos, mas do Morro do Alecrim, na sexta-feira, de tudo se viu e ouviu: repertório digno dos dinossauros e, ao final, o Boi Barrica…

Símbolo

…Um pouco adiante fica o Clube Alecrim, onde a festança acabou de ontem para hoje… Exemplo de esquecimento e desleixo, o Alecrim é um símbolo solitário do que restou do conjunto de outros clubes locais…

Improvisação

…Para que a festa ali acontecesse foi preciso improvisar uma estrutura minimamente adequada… No local antes imponente, só as paredes cochicham sozinhas a maior parte do tempo…

Lembranças

…Como o Casino, a União Caxiense, o Centro, a Maçonaria, hoje personagens da imaginação que sobrou nas massacradas lembranças de uma Princesa do Sertão do passado…

Copo vazio

…Como diria o velho Chico Buarque, “é sempre bom lembrar que o ar sombrio de um rosto está cheio de um ar vazio, vazio daquilo que no ar do copo ocupa um lugar… É sempre bom lembrar, guardar de cor, que o ar vazio de um rosto sombrio está cheio de dor”…

Kafkiana

…A metamorfose paulatina no patrimônio artístico, arquitetônico e memorial local foi deveras kafkiana… Desde o final do século passado, tudo se destrói e nada se reconstrói, templos humanos se transformaram em entulhos, restos jogados ao chão onde baratas e ratos é que fazem a festa…

Centelhas

…No fundo, a Velha Guarda também representa essa crise de identidade caxiense, na qual seus indivíduos se apegam a centelhas do passado para viajar na ideia de que vive uma realidade de antes que hoje é apenas surreal…

Submissão

…Na submissão dos dinossauros ao imaginário do que foi vivido, o que é absurdo, porém, vira de fato hipóteses que se confundem na tênue linha do fio invisível entre o real e a ficção…

Resgate

…No caso de Caxias, é possível sim mudar as coisas pela via do resgate da importância dos símbolos regionais. Aqui há uma história densa, um patrimônio imaterial gigantesco a ser explorado…

Flip

…Pegue-se o exemplo da pequena e histórica Paraty, de calçadas de pedras, e de seu festival literário, a Flip, idealizado pela editora inglesa Liz Calder e organizado pela Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), à frente o arquiteto Mauro Munhoz, com mais de 200 eventos anuais…

Sucesso

…Da primeira Festa Internacional de Paraty, em 2003, dez anos depois é sucesso absoluto no mundo inteiro… Detalhe: a cidade de Paraty é criança de berço quando comparada ao legado literário que a Princesa do Sertão ostenta…

Impossível

…A distinção entre Caxias e Paraty, porém, é que lá houve vontade, disposição e integração para tornar a Flip o que é hoje… Como ficou demonstrado na prática, o sonho de um somado ao de outros vence o que se acha impossível.

———————GONZO——————

Adrenalina!!! – Para relaxar: como piada na cidade, se diz que o estoque de gelol acabou nas farmácias em Caxias. Tomados de adrenalina, os dinossauros esqueceram as naturais barreiras humanas e partiram com tudo para os quatro dias de Velha Guarda… Esforço físico, corações estimulados, elevação da tensão arterial são uma beleza!!! Haja calmantes e ‘gelóis’!!!… Agora, quem não conseguiu mais o gelol foi mesmo de sebo de carneiro derretido!!!… E lá vamos nós de cabelão na BR3, ao som de Toni Tornado!!!

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