Velha Guarda, juventude, presente

Para encerrar a pujança festiva do III Encontro da Velha Guarda Caxiense, no bom estilo do rescaldo intelectual, vai aqui um texto da professora Betânia Costa, que deixou Coimbra, em Portugal, onde faz doutorado, apenas para cair na folia tupiniquim… Inspirada, a ‘rapariga’ brasileira, agora meio lusitana, viajou na reminiscência, juntou seus resíduos sentimentais, centelhas incrustadas, fragmentos da alma… Vide lá:

A Velha Guarda

e a juventude do presente

Caxias é uma cidade singular, no seu corpo habita a força da resistência de Balaios e Bem-te-vis, nas suas veias corre o sangue lírico de poetas e escritores (as), o som suave das baladas musicais das vozes de seus cantores, dos tambores da umbanda, do urrar dos bois; a primazia do saber fazer dos artesões; o bailar dos caretas, do Lili, dos Guanarés…

Nesse universo diverso, surge o Encontro da Velha Guarda caxiense, um movimento que fortalece a identidade cultural da cidade, que agrega desejos e pessoas de várias gerações. Nele, percorrem-se locais que em tempos vivemos que a hora tardia esvaziou da gente e dos sons que o habitaram. E que neles entramos lentamente, quase em reverência. Pisamos o chão devagarinho, para não acordar o presente. Refazemos cada passo, reconhecemos a pedra torta, a árvore que falta, sabemos ainda das alegrias, do lugar dos medos, escutamos as gargalhadas, os passos, o roçar das malas de quem se vai…

Por vezes é bom revigorarmos o passado das cidades e de seus cidadãos. Buscamos neste tipo de viagem temporal não os lugares, mas a nós mesmos. Revisitamos quem fomos, relembramos um certo tipo de inocência, de otimismo e de limpidez no olhar e no final sorrimos a quem fomos com a melancolia, a maturidade e a sabedoria do presente.

A Velha Guarda é um lugar de encontros, reencontros, sorrisos, abraços e carinhos…. Parabéns aos idealizadores e organizadores do movimento (Betânia Costa)!!!…

Cortinas

…Fecham-se as cortinas… Até 2016, quando se reencontrarão todos os dinossauros caxienses!

Economia informal

De volta ao cotidiano, segue abaixo um relevante estudo do economista caxiense Kalil Simão sobre a economia local…

Economia informal II

…A economia informal em Caxias vem decrescendo nos últimos anos. No período 2003/2013 se observa queda constante nos valores que representam esta economia. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (Etco), podemos estimar os valores que a economia informal representa para o município. Ela movimentou em 2013 aproximadamente R$ 132.777 mil contra R$ 137.695 no ano anterior. A redução de 3,70 pontos percentuais decorre de gradativas melhoras institucionais, como a simplificação tributária, com o Simples, Supersimples e MEI (Micro Empreendedor Individual), desoneração da folha de pagamentos, etc…

Novas empresas

…Caxias fechou o ano de 2012 com 5.376 empresas, devidamente legalizadas, constituídas principalmente, por micros e pequenos empreendedores do ramo comércio/serviço. Em 2013 esse número passou para 6.054 empreendimentos, com a criação de mais 678 novas empresas. Evolução de 12,61%…

Novas empresas II

…Até 27 de junho de 2014, foram criadas 288 empresas no município de Caxias, ou o equivalente a 2,38 empresas abertas por dia útil, que representa 42,48% do número de empreendimentos formalizados no ano 2013…

Empreendedorismo

…Caxias é o quarto município mais empreendedor do Estado, com participação de 2,24%. Neste ano, a média diária de abertura de novos empreendimentos é de 2,38 empresas/dia útil…

Comércio

…Na análise do volume de novas empresas por setor econômico, o setor Comércio se apresenta como o mais dinâmico, com 3.401 empresas. O setor Serviços, com 2.343; o Setor Indústria com 307 empresas. O setor Agronegócio se apresenta com 187 organizações; o setor Financeiro com 88; e o Setor Público se apresenta com 16 empresas. Há de se observar que, somente no ano 2005, foram criadas em Caxias 1.146 empresas do setor Comércio; 711 do setor Serviços; 89 no setor industrial; 83 no Agronegócio; 10 no Financeiro e 4 no Setor Público…

Abertura

…Até o ano 2004 a média anual de abertura de novos negócios era de 49 empreendimentos. No ano 2005, houve abertura de 2.039 novas empresas no município e após o ano 2005, na média, foram 428 novas empresas…

Sequência

…Acompanhe na próxima coluna de terça-feira a sequência ao trabalho de Kalil Simão… Vale o registro.

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VELHA GUARDA POR JOTÔNNHO VIANA

Leite no pires

Fim de festa, malas arrumadas, adeus e pé na estrada… Como gatos que beberam com sofreguidão o leite no pires, assim se despedem os dinossauros que moram longe… Pois agora é hora de refletir sobre o legado do III Encontro da Velha Guarda e o que isso contribuiu para a Princesa do Sertão além de recarregar as baterias da turma que fica e da que se vai.

Hora de pensar, por exemplo, na personalização, em critérios que norteiem efetivamente a iniciativa, hoje dirigida mais de maneira consensual mas sem normas que oficializem coletivamente o comportamento de seus organizadores. O movimento cresceu e não dá mais para achar que o amanhã acabou numa noite de porre e puro hedonismo ao som de Renato e seus Blue Caps… O que Caxias lucrou de fato com a festança? Que influências a velha guarda deixa para modificar a cultura de enlatados que se pratica hoje neste solo de onde no passado brotaram tantos talentos que viraram faróis para o Brasil e o mundo?… A Velha Guarda, de certa forma, lembra um pouco as grandes festas de São Benedito, que após ser encaradas como pagãs pela Igreja Católica tiveram fim melancólico.

A diferença exponencial da Velha Guarda se encontra exatamente na liberdade de não estar vinculada a credos políticos ou religiosos. No apartidarismo a que me referi na coluna de ontem está o valor intrínseco e a própria sobrevivência do movimento… E, desvinculado de amarras similares, terá inconfundível capacidade de mudar, sim, o norte cultural da cidade.

Curvas

Nas curvas que não são da estrada de Santos, mas do Morro do Alecrim, na sexta-feira, de tudo se viu e ouviu: repertório digno dos dinossauros e, ao final, o Boi Barrica…

Símbolo

…Um pouco adiante fica o Clube Alecrim, onde a festança acabou de ontem para hoje… Exemplo de esquecimento e desleixo, o Alecrim é um símbolo solitário do que restou do conjunto de outros clubes locais…

Improvisação

…Para que a festa ali acontecesse foi preciso improvisar uma estrutura minimamente adequada… No local antes imponente, só as paredes cochicham sozinhas a maior parte do tempo…

Lembranças

…Como o Casino, a União Caxiense, o Centro, a Maçonaria, hoje personagens da imaginação que sobrou nas massacradas lembranças de uma Princesa do Sertão do passado…

Copo vazio

…Como diria o velho Chico Buarque, “é sempre bom lembrar que o ar sombrio de um rosto está cheio de um ar vazio, vazio daquilo que no ar do copo ocupa um lugar… É sempre bom lembrar, guardar de cor, que o ar vazio de um rosto sombrio está cheio de dor”…

Kafkiana

…A metamorfose paulatina no patrimônio artístico, arquitetônico e memorial local foi deveras kafkiana… Desde o final do século passado, tudo se destrói e nada se reconstrói, templos humanos se transformaram em entulhos, restos jogados ao chão onde baratas e ratos é que fazem a festa…

Centelhas

…No fundo, a Velha Guarda também representa essa crise de identidade caxiense, na qual seus indivíduos se apegam a centelhas do passado para viajar na ideia de que vive uma realidade de antes que hoje é apenas surreal…

Submissão

…Na submissão dos dinossauros ao imaginário do que foi vivido, o que é absurdo, porém, vira de fato hipóteses que se confundem na tênue linha do fio invisível entre o real e a ficção…

Resgate

…No caso de Caxias, é possível sim mudar as coisas pela via do resgate da importância dos símbolos regionais. Aqui há uma história densa, um patrimônio imaterial gigantesco a ser explorado…

Flip

…Pegue-se o exemplo da pequena e histórica Paraty, de calçadas de pedras, e de seu festival literário, a Flip, idealizado pela editora inglesa Liz Calder e organizado pela Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), à frente o arquiteto Mauro Munhoz, com mais de 200 eventos anuais…

Sucesso

…Da primeira Festa Internacional de Paraty, em 2003, dez anos depois é sucesso absoluto no mundo inteiro… Detalhe: a cidade de Paraty é criança de berço quando comparada ao legado literário que a Princesa do Sertão ostenta…

Impossível

…A distinção entre Caxias e Paraty, porém, é que lá houve vontade, disposição e integração para tornar a Flip o que é hoje… Como ficou demonstrado na prática, o sonho de um somado ao de outros vence o que se acha impossível.

———————GONZO——————

Adrenalina!!! – Para relaxar: como piada na cidade, se diz que o estoque de gelol acabou nas farmácias em Caxias. Tomados de adrenalina, os dinossauros esqueceram as naturais barreiras humanas e partiram com tudo para os quatro dias de Velha Guarda… Esforço físico, corações estimulados, elevação da tensão arterial são uma beleza!!! Haja calmantes e ‘gelóis’!!!… Agora, quem não conseguiu mais o gelol foi mesmo de sebo de carneiro derretido!!!… E lá vamos nós de cabelão na BR3, ao som de Toni Tornado!!!

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Velha Guarda Caxiense por Jotônio Vianna

Caxias em Off

Jotônio Vianna

Velha Guarda Caxiense

Na sua terceira edição, a Velha Guarda Caxiense já é um dos maiores eventos do gênero no Maranhão e no país. Grandes nomes da música nacional já embalaram a principal noite do encontro no berço do poeta Gonçalves Dias. Antes, nos três dias que compõem o resgate das lembranças e das emoções dos ‘dinossauros’, acontece vasta programação que junta no mesmo caldo exposições de arte, de humor, lançamentos de livro e muitos, muitos ‘chapéus’ repletos cropped-CAPA-VELHA-GUARDA.jpgde história de outros carnavais… Memórias das memórias, revivescências, infância e adolescência à flor da pele, temperadas da fase madura que embala o passado e o cotidiano de todos os que acorrem à Princesa do Sertão para esse momento único de prazer e de reencontro de uma época em que os sonhos conduziam moços e moças para um futuro mágico.

Feliz para sempre

Naqueles idos quase ninguém pensava em outra coisa que não apenas em ser feliz para sempre… As cabeças eram uma bolha esfuziante, pensamentos pueris. Quase todos, com raras exceções, tinham na mente um mar de ‘loira, champanhe e apartamento’, como cunhou o irreverente jornal Pasquim, espécie de porta-voz da turma da patrulha ideológica da chamada esquerda brasileira de então sobre os que gostavam de Iê Iê Iê, de Jovem Guarda, de rock’n’roll…

Cabeças

…Mas havia também os ‘cabeças’, antenados com os movimentos sociais e que curtiam o som da rapaziada que fazia música de protesto, apreciadores de MPB…

Abraço forte

…Essa mistura democrática de estilos, visões e de modo diferentes de encarar a vida chegou ao presente, mas não para dividir, e sim para unir ainda mais as pessoas que viajam quilômetros e quilômetros, de todas as partes do Brasil e até do exterior, para dar um abraço forte no amigo, na amiga, nos parentes, nos achegados que habitam suas lembranças…

Lambuzam

…Os antenados em Chico Buarque, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, Gilberto Gil, Tom Jobim, João Gilberto, Vinícius de Moraes, Tom Zé e outros monstros agora se ‘lambuzam’ em um riso só, numa gargalhada só, com o pessoal das ‘bolhas espumantes’ de Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Renato e Seus Blue Caps, Golden Boys, The Fevers, Os Incríveis, The Beatles, etc, etc… Todos, sem medo de ser feliz, agora no presente, como os mesmos ‘dinossauros’ sonhavam no passado…

Jovens tardes

…Das jovens tardes de domingo, dos vesperais no Cine Rex, no Cine São Luís, dos rodopios ingênuos nos bancos das Praças Gonçalves Dias, Matriz e Panteon quando caía a noite… Dos bailes do Casino, da União Artística, do Centro, do ‘mata-fome’ de madrugada na Dica, das passagens pela Madame Diracy, ícone dos puteiros do século passado na Princesa do Sertão, da Calçada Alta, da Boate Madrid…

Recato

…Das moças de corpos com vestidos longos, das pernas que mal se divisavam, dos seios recatados, dos pudores que a sociedade impunha na ânsia de refrear os instintos…

Fumaça

…Todo um tempo que se foi na fumaça das idades, no cálice com vinho Sangue de Boi, Cabeça de Touro, no uísque de terceira, na cachaça boa da terra, nos fritos de galinha roubada em ‘Sábado de Aleluia’, nos cigarros de palha, no Continental sem filtro, nas noites de Lua cheia regadas a violão, papo divertido e janelas entreabertas das meninas que davam ponche para lavar a alma descompromissada…

Arca

…É atrás disso, do passado, das memórias das memórias que a rapaziada se junta, se aglomera de novo na Princesa do Sertão em busca do que já parecia perdido e enterrado numa velha arca de dimensões intangíveis…

Equipe

…Dos que pensaram, idealizaram o ajuntamento da Velha Guarda há muitos… Hoje à frente uma equipe desprendida, mas que também se apoia em vários outros integrantes que se irmanam para não deixar que nada estrague a festa…

A lamparina

…Por isso, é preferível não citar nomes, embora todos saibam quem de fato toca a coisa… São homens e mulheres que, no fundo, lutam apenas para manter acesa a lamparina das lembranças e mostrar aos caxienses mais jovens que a Princesa do Sertão é dotada de um espírito único…

Hedonismo

…Nossos símbolos de uma estação que não volta mais, portanto, seguem iluminando, resgatando, fazendo pulsar de novo os ritos de transição das gerações que beberam da década de antes de 60 para além de 70, 80 do século passado e que, com certeza também darão vida memorial aos que, no futuro, irão repetir a façanha de fazer renascer tudo de novo, como se fora uma Fênix que encarna o espírito de seus ancestrais… Congelai o tempo, ó dinossauros, e roguem ao bom hedonismo, o que não apenas procura o prazer, mas também a revitalização de tudo o que o espírito é capaz de trazer de estimulante ao presente!

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